Mostrando postagens com marcador Sabino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sabino. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

FERNANDO SABINO

 



FERNANDO SABINO

Fernando Sabino, escritor brasileiro, nasceu em 12 de outubro de 1923. Aos 15 anos de idade, já escrevia para periódicos e, em 1941, trabalhava como redator na Folha de Minas, em Belo Horizonte. Nesse mesmo ano, publicou seu primeiro livro: Os grilos não cantam mais. A sua mudança para o Rio de Janeiro ocorreu em 1944, onde passou a escrever para o Correio da Manhã. Seu maior sucesso, o romance O encontro marcado, foi publicado em 1956.

O escritor, que morreu em 11 de outubro de 2004, faz parte da terceira fase do modernismo brasileiro (ou pós-modernismo). Suas obras apresentam o anticonvencionalismo dessa geração, além de questões existenciais e diálogo interior. Mas Fernando Sabino, ganhador dos prêmios Jabuti e Machado de Assis, é mais conhecido por suas crônicas inovadoras e bem-humoradas, que falam sobre os desconcertos do cotidiano urbano com lirismo e sensibilidade para os dilemas humanos.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS DE FERNANDO SABINO

O escritor Fernando Sabino faz parte da terceira fase do modernismo brasileiro (ou pós-modernismo). Como característica dessa geração, é possível apontar o anticonvencionalismo, por exemplo, no diálogo com os leitores em O grande mentecapto ou na simbiose entre narrador e protagonista em O encontro marcado. No mais, em suas obras, também estão presentes as questões existenciais e, portanto, universais, tão comuns a essa geração, além do diálogo interior típico do romance psicológico.

Outro fator que determina a localização desse escritor nessa fase e o projeta, inclusive, para a contemporaneidade são as suas crônicas — consideradas inovadoras pela crítica —, que apresentam as seguintes características:

·        Ambiente urbano

·        Senso de humor

·        Desconcertos da vida

·        Nonsense cotidiano

·        Flagrantes do cotidiano

·        Valorização do aspecto humano

·        Diálogo com o leitor

·        Lirismo

·        Uso de metáforas

·        Metalinguagem

·        Intertextualidade

·        Ficcionalização do cotidiano

·        Trocadilhos

·        Ironia

·        Coloquialismo

·        Mineiridade

·        Presença de paródias

·        Dramaticidade

·        Frases curtas

·        Fragmentação

·        Flexibilidade estrutural

 

OBRAS DE FERNANDO SABINO

·        Os grilos não cantam mais — contos (1941)

·        A marca — novela (1944)

·        A cidade vazia — crônicas (1950)

·        A vida real — novelas (1952)

·        Lugares-comuns — dicionário (1952)

·        O encontro marcado — romance (1956)

·        O homem nu — contos (1960)

·        A mulher do vizinho — crônicas (1962)

·        A companheira de viagem — crônicas (1965)

·        A inglesa deslumbrada — crônicas (1967)

·        Deixa o Alfredo falar — crônicas (1976)

·        O encontro das águas — crônicas (1977)

·        Crônica irreverente de uma cidade tropical — crônicas (1977)

·        O grande mentecapto — romance (1979)

·        Medo em Nova York — crônicas (1979)

·        Gente — crônicas (1979)

·        A falta que ela me faz — crônicas (1980)

·        O menino no espelho — romance (1982)

·        O gato sou eu — contos (1983)

·        A vitória da infância — crônicas (1984)

·        Macacos me mordam — infantil (1984)

·        A faca de dois gumes — novelas (1985)

·        O pintor que pintou o sete — infantil (1987)

·        Martini seco — romance (1987)

·        O tabuleiro de damas — autobiografia (1988)

·        De cabeça para baixo — crônicas (1989)

·        A volta por cima — crônicas (1990)

·        Zélia, uma paixão — biografia (1991)

·        O bom ladrão — novela (1992)

·        Aqui estamos todos nus — novelas (1993)

·        O outro gume da faca — novela (1996)

·        Amor de Capitu — romance (1998)

·        No fim dá certo — crônicas (1998)

·        A chave do enigma — crônicas (1999)

·        O galo músico — crônicas (1999)

·        Cara ou coroa? — crônicas (2000)

·        Duas novelas de amor — novelas (2000)

·        Livro aberto — crônicas (2001)

·        Cartas perto do coração — correspondência com Clarice Lispector (2001)

·        Cartas na mesa — correspondência com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (2002)

·        Os caçadores de mentira — infantil (2003)

·        Cartas a um jovem escritor e suas respostas — correspondência com Mário de Andrade (2003)

·        Os movimentos simulados — romance (2004)

·        Bolofofos e finifinos — infantil (2004)


O GRANDE MENTECAPTO

O grande mentecapto foi o romance que deu a Fernando Sabino o Prêmio Jabuti. Nele o narrador conta as aventuras de José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva, ou ainda Geraldo Boaventura, ou também Geraldo Viramundo. É o “relato das aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações”. Assim, o protagonista nasce no interior mineiro, em Rio Acima. Sua infância, porém, é marcada por uma tragédia, a morte de seu amigo Pingolinha, atropelado por um trem. Isso gera, no menino Geraldo, introspecção, amadurecimento ou “loucura”.

Geraldo Boaventura já tem mais de 15 anos quando vai para o seminário de Mariana. Com 18 anos, é expulso do seminário e transforma-se em Viramundo, uma espécie de Dom Quixote mineiro, que percorre o estado de Minas Gerais, onde vive suas aventuras e desventuras. Vai para Ouro Preto e apaixona-se por Marília Ladisbão. Sem sucesso no amor, dirige-se à Barbacena, onde é internado em um hospício, mas consegue fugir. Em seguida, chega a Juiz de Fora e experimenta a vida militar. Na sequência, vai para São João del-Rei e, depois, é preso em Tiradentes. Segue para Congonhas do Campo, enfrenta um touro em Uberaba e conversa com um fantasma em Curvelo.

Depois de Curvelo, vive aventuras e desventuras em Santana do Rio Verde, Itaúna, Itajubá, Ponte Nova, Brejo das Almas, Itabira, Sabará, São Lourenço, Januária, Carinhanha, Monte Santo, Três Corações, Araxá, Vila do Príncipe, Caratinga, Carmo de Minas, Nova Lima, Passa Quatro, Mar de Espanha, Pedro Leopoldo, Passos, Pirapora, Poços de Caldas, Pará de Minas, Paracatu, Formiga, Sete Lagoas, Araguari, Uberlândia, Varginha, Muzambinho, Carangola, Abaeté, Alfenas, Baependi, Barão de Cocais, Caeté, Belo Vale, Boa Esperança, Morada Nova, Chapéu d’Uvas, Divinópolis, Pitangui, Grão Mogol, Ituiutaba, Bom Despacho, Lavras, Ouro Fino, Viçosa...

Por fim, Viramundo chega à capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, onde, “entre retirantes, mulheres, doidos e mendigos, cumpre o seu destino”, nessa narrativa que mescla o cômico ao trágico e muito faz lembrar, além do Dom Quixote (1605), de Miguel de Cervantes (1547-1616), o Cândido ou O otimismo (1759), de Voltaire (1694-1778). Dessa forma, nosso Quixote ou nosso Cândido é Viramundo, o grande mentecapto de Minas Gerais.



O Grande Mentecapto (filme completo)


Resenha do livro:




Baixar ou ler o livro: O grande mentecapto 





O Homem Nu

Fernando Sabino

 

        Ao acordar, disse para a mulher:

        — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

        — Explique isso ao homem — ponderou a mulher.

        — Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.

        Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

        Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

        — Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

        Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

        Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares...  Desta vez, era o homem da televisão!

        Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

        — Maria, por favor! Sou eu!

        Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.

        Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

        — Ah, isso é que não!  — fez o homem nu, sobressaltado.

        E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pelo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!

        — Isso é que não — repetiu, furioso.

        Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar.  Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador.  Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?  Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

        — Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.

         Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

        — Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso.  — Imagine que eu...

        A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

        — Valha-me Deus! O padeiro está nu!

        E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

        — Tem um homem pelado aqui na porta!

        Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

        — É um tarado!

        — Olha, que horror!

        — Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

        Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

        — Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

        Não era: era o cobrador da televisão.