Sobrenomes
Embora se diga que o uso de
sobrenomes tenha surgido entre os chineses há cerca de 5 mil anos, criação do
mitológico imperador Fuxi, a quem se atribui também a invenção da escrita, a
verdade é que a prática tal como a conhecemos hoje só foi adotada entre os
séculos 16 e 18.
Desde a pré-história até a
Antiguidade, o homem ocidental sempre se identificava apenas pelo nome próprio.
Mesmo os antigos gregos eram identificados apenas pelo nome próprio. Alguns
mais proeminentes usavam como complemento uma informação geográfica ou seu
local de nascimento (como Tales de Mileto) ou de filiação (como Aristides,
filho de Lisímaco). É o que conhecemos hoje por sobrenomes toponímicos e
patronímicos (falaremos deles mais tarde). É possível notar esse costume também
entre os hebreus: José de Arimateia, Jesus de Nazaré ou Simão, filho de Jonas.
Mas nesse tempo, ainda não havia o conceito de identificar um grupo familiar
por várias gerações com o mesmo “sobrenome”.
A prática foi refinada na antiga
Roma. Com o passar do tempo e a burocratização do Estado, além do “praenomen”
(o nome próprio ou prenome), os romanos passaram a usar uma classificação por
“nomes” para identificar cada indivíduo. O nome próprio vinha primeiro, depois
vinha o “nomem”, que designava o clã ou tribo de origem, e, por último, o
“cognomen”, que designava a família. Os romanos ilustres acrescentavam ainda um
quarto nome, o chamado “agnomen”, que era usado para celebrar feitos
memoráveis. Assim, Júlio César era “Caius Iulius Caesar” (prenome Caio, do clã
Júlia, da família César) e seu filho adotivo e herdeiro, o imperador César
Augusto adotou o agnome “Augustus”, o divino.
Quando o Império Romano se
desintegrou no século 5, a utilização de nomes próprios sem identificação dos
nomes de família tornou-se costume novamente. As tribos bárbaras germânicas,
responsáveis pela queda de Roma, não conheciam o uso de sobrenomes. Em verdade,
como os antigos gregos e hebreus eles faziam tão somente o uso de referências
geográficas ou de filiação. No século 8, nos textos latinos eram comuns o uso
de “sobrenomes” de filiação, tal como na Antiguidade. Assim, expressões como
“Paulus filius Petri”, Paulo filho de Pedro, ou “Paulus filius quondam Petri”,
Paulo filho de um tal Pedro ou de um cidadão chamado ou conhecido por Pedro.
Esse costume perdurou até os
séculos 12 e 13. Nessa época, com o aumento populacional nos centros urbanos,
os nomes próprios já não eram mais suficientes para distinguir as pessoas. Com
o surgimento das disputas quanto ao direito de sucessão de terras e bens entre
os senhores feudais, foi preciso encontrar algo que indicasse vínculo com o
proprietário, para que os filhos ou parentes pudessem tomar posse da terra ou
dos bens, antes que outra pessoa com o mesmo nome tentasse se passar por
herdeiro. Da importância de deixar registrados todos os atos políticos,
econômicos e religiosos da nobreza surgiu a necessidade de identificar com
exatidão quem era quem.
No entanto, mesmo tendo sido a
origem para a maioria dos sobrenomes usados hoje, na Idade Média boa parte
deles nada tinha a ver com os nomes de família. Isto é, eles não eram
hereditários, não eram passados de pai para filho. A primeira referência ao uso
hereditário do sobrenome surgiu em Veneza, no norte italiano, no século 9,
chegando depois à França e Península Ibérica no século 11 e à Inglaterra cem
anos mais tarde. Mas sem uma norma definida e clara. Foi durante o século 16,
já passou a ser possível reconhecer uma linhagem familiar mesmo entre aqueles
que não possuíam títulos de nobreza.
A Reforma Protestante (1517)
contribuiu muito para a popularização do uso de sobrenomes. A partir do ano de
1524, os pastores começaram a anotar e manter os registros de casamentos e
batismos em suas Igrejas como forma de contabilizar seus fiéis. Depois do
Concílio de Trento (1545-63), os católicos também passaram a fazer o mesmo.
Estes primeiros registros apontavam nada mais do que simples apelidos ou
alcunhas, por isso os sobrenomes indicavam geralmente características físicas,
lugares de origem, as profissões ou o nome dos pais. Algo semelhante ao que
faziam os gregos antigos, os hebreus e também os bárbaros germânicos. Por
exemplo: Como diferenciar duas pessoas de nome próprio João que moravam na
mesma cidade? Era acrescentado um “alfaiate” ao nome do João que costurava. Ou
então, se já existisse um João Alfaiate, era anotado uma característica física;
“pequeno” se ele fosse baixo.
Assim, o uso dos sobrenomes se
tornou comum mesmo entre as camadas mais baixas da população e não mais
exclusividade da nobreza ou da burguesia. Um pouco mais tarde, entre o final do
século 17 e o início do século 19, eles se tornaram hereditários e
permanentemente fixos a uma família. Para qualquer fim, fosse civil ou
religioso, o homem comum poderia então comprovar por meio de documentos o
pertencimento a uma determinada família. É por isso que a maioria das pessoas
hoje consegue rastrear, com relativa facilidade, raízes familiares até a Guerra
dos Trinta Anos (1618-48). Alguns, com um pouco mais de dificuldade, conseguem
fazer isso até a época da Reforma ou mesmo antes. Mas a popularização do
costume de usar sobrenomes não padronizou as formas de usá-lo. Cada país adotou
uma maneira diferente de transmitir para geração futura o nome da família.
Entre os alemães, por exemplo, o sobrenome paterno era mantido em evidência,
enquanto na Península Ibérica o sobrenome do pai era privilégio dos
primogênitos e às mulheres cabia, quando muito, receber nomes santos. Dentro da
cultura ocidental existem formas variadas de apresentar os nomes. Na maioria
dos países, o nome próprio precede o sobrenome. Já nas culturas africana e
oriental é comum o sobrenome preceder o prenome na ordem do nome. Nos países de
língua inglesa, França e Alemanha, pelo menos entre os protestantes é comum a
mulher usar apenas o sobrenome do marido depois de casada e os filhos receberem
somente o sobrenome paterno. Nos países da Península Ibérica e na América
luso-hispânica, de forma geral, não sendo uma regra seguida à risca, o costume
é que a mulher receba o nome do marido e mantenha o de um dos genitores (o pai,
quase sempre) ou mesmo o dos dois. Na sequência, os filhos do casal recebem os
dois sobrenomes (do pai e da mãe). Sendo filha, ela irá perder o materno ao casar-se,
em detrimento ao do esposo. É um costume muito usado no Brasil, embora nas
últimas décadas isso também tenha se modificado, com muitas possibilidades,
como o uso do sobrenome da mulher pelo marido. Historicamente, no entanto,
entre os portugueses e os brasileiros do período colonial não era comum que a
filha mulher recebesse o nome do pai. E nem os filhos homens mais novos. Em
Portugal, durante os tempos da monarquia e pré-Revolução Francesa, os filhos do
sexo feminino recebiam o sobrenome materno ou alguma alcunha religiosa, como
dos Anjos, Assunção, etc. Os filhos não primogênitos, por sua vez, recebiam
sobrenomes de outros membros da família, muitas vezes o sobrenome do avô
paterno. Quase sempre, somente o filho mais velho levava a frente o sobrenome
paterno assim como o título de nobreza, se fosse o caso.
Conheça os três sobrenomes mais comuns
em alguns países do mundo
Alemanha
– Müller, Schmidt, Schneider
Argentina – González, Rodriguez, Gómez
Canadá – Li, Smith, Lam
China – Wang, Li, Zhang
EUA
– Smith, Johnson, Williams
França
– Martin, Bernard, Dubois
Inglaterra
– Smith, Jones, Taylor
Itália
– Rossi, Russo, Ferrari
Japão
– Sato, Suzuki, Takahashi
Portugal
– Silva, Santos, Ferreira
Países árabes
– Ali, Ahmedi, Ahmad
Alguns sobrenomes mais comuns do
Brasil
1 — Silva
Mais de 5 milhões de brasileiros
possuem o sobrenome “Silva”, que também é o mais comum em Portugal. Derivado do
latim, significa “selva”, ou floresta. A tese mais aceita é a de que o
sobrenome teve origem no século 11, na Torre e Honra de Silva, o solar de uma
família de nobres do Reino de Leão, uma das antigas monarquias ibéricas. No
Brasil, o sobrenome foi difundido ao ser adotado por escravos e crianças filhas
de pais incógnitos. Também foi usado por imigrantes que chegavam ao país e
queriam começar uma nova vida, sem vínculos com o passado na Europa.
2 — Santos
Aproximadamente 4 milhões de
brasileiros têm o sobrenome “Santos”, sem contar a variação “dos Santos”, que
soma mais de 706 mil pessoas. De origem cristã, deriva da palavra latina
“sanctus”, que significa “santo”. Durante a era medieval, era o sobrenome dado
aos nobres ibéricos que nasciam no dia primeiro de novembro, o Dia de Todos os
Santos. No Brasil, foi atribuído aos portugueses que se estabeleciam na
província da “Bahia de Todos os Santos”, mas também foi adotado pelos escravos
que ali residiam após a abolição da escravatura, em 1888.
3 — Oliveira
Presente na certidão de mais de
3,8 milhões de brasileiros, o sobrenome faz referência à arvore da azeitona.
“Oliveira” surgiu como uma alcunha, para designar aqueles que possuíam
plantações do fruto. O primeiro a possuir esse nome, provavelmente no século
13, foi Pedro Oliveira, um homem muito rico de Évora, em Portugal, cidade
conhecida pela diversidade de olivais. O sobrenome se tornou conhecido no
Brasil graças à chegada dos imigrantes, com maior concentração na região
Nordeste.
4 — Souza
“Souza” é o 4º sobrenome mais
comum no país, presente na certidão de cerca de 2,6 milhões de brasileiros,
enquanto “Sousa” reúne cerca de 830 mil pessoas. A origem dos dois é a mesma:
derivam da palavra “saxa”, em latim, que significa “rocha”. Foi usado,
inicialmente, pelas famílias que habitavam a beira do rio Sousa, no norte de
Portugal. Segundo os genealogistas, o primeiro a adotar o sobrenome foi o nobre
D. Egas Gomes de Sousa, nascido em 1305. No Brasil, sofreu uma variação e
passou a ser escrito com “z”.
5 — Rodrigues
Com origem em Portugal, Rodrigues
significa o “filho de Rodrigo”, já que, antigamente, o sufixo “es” era usado
para designar a filiação. Tornou-se popular no Brasil com a chegada dos
imigrantes, na época das capitanias. Hoje, são mais de 2,4 milhões de
“Rodrigues” no país. Em espanhol, o equivalente é “Rodriguez”, nome comum em
países de colonização espanhola. No censo norte-americano, o sobrenome também
aparece como um dos mais usados, confirmando o crescimento da comunidade
hispânica nos EUA.
6 — Ferreira
O sobrenome “Ferreira” remonta ao
século 11, na Península Ibérica. De origem geográfica, era usado como alcunha
para designar aqueles que moravam em lugares onde existiam jazidas de ferro.
Segundo relatos históricos, Rui Pires de Ferreira foi o primeiro a adotar a
alcunha como sobrenome. Há indícios de que a família Ferreira veio em caravanas
para o Brasil, logo após a colonização, e fixou residência no estado de
Alagoas. Hoje, mais de 2,3 milhões de brasileiros possuem o sobrenome.
7 — Alves
Assim como “Rodrigues”, “Alves” é
um sobrenome patronímico, ou seja, derivado do nome do patriarca da família.
Nesse caso, é a abreviação de “Álvares”, o “filho de Álvaro”. Possui dois
significados aceitos: “o que tudo vigia, cuida, protege e defende” ou
“guerreiro, defensor dos elfos”. No Brasil, a família “Alves” se estabeleceu no
século 18, inicialmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro
e Pará. Hoje, cerca de 2,2 milhões de brasileiros têm esse sobrenome.
8 — Pereira
“Pereira” pertence ao sobrenome
de aproximadamente 2,2 milhões de brasileiros. Não existe consenso sobre sua
origem, mas evidências históricas remontam ao português Rodrigo Gonçalves de
Pereira, que recebeu como pagamento de seus serviços uma propriedade chamada
Pereira, referência à plantação de peras que existia no local. Em 1534,
Francisco Pereira Coutinho veio para o Brasil, após receber uma capitania
hereditária na Bahia. A partir daí, o sobrenome se espalhou pelo país.
9 — Lima
De origem geográfica, “Lima” era
usado para designar as comunidades que viviam à beira do Rio Lima, que nasce na
Espanha e deságua ao Norte de Portugal. O primeiro a adotar o sobrenome foi Dom
João Fernandes de Lima, conselheiro do Reino e patriarca de uma das principais
famílias de Portugal, no século 15. No Brasil, os “Lima” se estabeleceram,
inicialmente, no Paraná. Hoje, mais de 2 milhões de brasileiros possuem o
sobrenome em seus registros.
10 — Gomes
Esse é outro exemplo de sobrenome
patronímico, uma forma de criação de sobrenomes durante a Idade Média, que
indicava a origem paterna da pessoa. “Gomes” significa “filho de Gomo”, nome
abreviado de “Gomoarius” (homem de guerra). Possui as variações “Gomez” e
“Gómez”, muito comuns em países hispânicos. No Brasil, os “Gomes” participaram
do processo de colonização do nordeste. Hoje, cerca de 1,6 milhão de
brasileiros possuem esse sobrenome.
11 — Ribeiro
Derivado da palavra “ripariu”, do
latim, “Ribeiro” significa “rio pequeno” e era utilizado como alcunha, para
designar as pessoas que viviam em regiões banhadas por rios. Dom Ramiro, último
regente do reino de Leão, em Portugal, foi um dos primeiros membros da família
“Ribeiro”. O nome se espalhou pelo mundo por meio das navegações portuguesas do
século 16 e chegou ao Brasil com a caravana de Pedro Álvares Cabral. Hoje, mais
de 1,5 milhão de brasileiros possuem esse sobrenome.
12 — Martins
Assim como em Portugal, “Martins”
é um sobrenome muito comum no Brasil. De origem espanhola, deriva de “Martim”
ou “Martino”, nome que vem do latim e significa “homem marcial, belicoso,
guerreiro”. Em alguns livros, “Martim” também é apontado como diminutivo de
“Marte”, o deus da guerra. No Brasil, a família “Martins” chegou logo após o
início da colonização. Hoje, cerca de 1,5 milhão de brasileiros possuem o
sobrenome em seus registros.
A origem dos 50 sobrenomes mais comuns do Brasil
Site mostra a origem do seu
sobrenome e onde ele é popular
Através de um site você pode ver
o número de pessoas que partilham do mesmo sobrenome que o seu
Vídeos:
ORIGEM DOS SOBRENOMES MAIS COMUNS NO BRASIL
10 sobrenomes mais populares no Brasil
Fonte:
https://super.abril.com.br/especiais/a-origem-dos-50-sobrenomes-mais-comuns-do-brasil/
https://forebears.io/pt/surnames
https://super.abril.com.br/mundo-estranho/a-origem-dos-15-sobrenomes-brasileiros-mais-populares/
https://www.revistabula.com/25839-a-origem-dos-12-sobrenomes-mais-comuns-do-brasil/

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